terça-feira, 13 de julho de 2010

Muita Cafeína E Pouco Açúcar

O copo está cheio. O copo está cheio e está fervendo. Segurei na boca.
Aquele vapor passava diante meus olhos com uma suavidade deplorável.
Enchia de saliva a boca já seca, esperando por um gole daquele negro quente.
Sentia as pupilas estourando e pedindo por favor um descanso.
Olhava pela janela e via o dia amanhecendo novamente... Novamente.
Perdia as contas de quantas noites já fora, e quantas manhãs não haviam tido o gosto de leite morno e pão com manteiga.
O vento sopra na janela entreaberta.
O leve barulho, quase que imperceptível dos carros e prostitutas, deixa o vazio menos calado.
A vasta visão que tinha da janela eram os prédios silenciosos com duas ou três luzes acesas. Um casal extremamente apaixonados que transavam no mínimo 2 vezes durante a noite. Um recém nascido babão que abria a boca e berrava de minuto em minuto. Um senhor de idade que lá pelas tantas se sentava na sacada e fumava seu cigarro enquanto lia um livro.
E esse, esse era meu entretenimento noturno.
Reparava todos os dias no sol nascendo. E aquilo, ah, aquilo era lindo! Não só pela bela imagem que obviamente já havia tirado várias fotos (Quase todas do mesmo ângulo e no mesmo local), mas pelo fato de estar ali, amanhecendo também, nascendo todos os dias.
Geralmente eu não prestaria atenção nisso, mas meus olhos praticamente declaravam a minha necessidade de uma noite bem dormida.
Mas aquele, aquele sem açúcar, bem forte, fervendo. Aquele sim me entendia como ninguém! Me tirava a vontade, me supria com saudade. Me deixava em constante efeito de fixação por alguma coisa que provavelmente acharia rídiculo no dia seguinte. Me permitia jogar as horas foras, como quem joga um pedaço de papel usado. Proporcionava aquela brecha de humor cretino, que afastava o bom-senso e se aproximava da negligência.
Era fatal.
O calendário já não era mais riscado. Parecia que todo dia era o mesmo dia. Uma rotina deprimente e avassaladora.
Sentia a necessidade de algo realmente novo.
E um novo sabor...
Enquanto isso, a cafeteira me espera! Com muita cafeína e pouco açúcar.