sábado, 18 de setembro de 2010

Auto-Flagelo




Sempre parti do princípio de que a melhor maneira de se curar uma dor, é alimentando-a. Auto-flagelação. Sentir a dor várias vezes, de diversas formas. Aumentá-la absurdamente. Mentalizar fatores que te fariam sentir cada vez pior. Fingir auto-destruição mesmo. Foder com o psicológico de tal forma que nada mais faça sentido, além da dor. Com o tempo torna-se monótona. Monotonia naturalmente te faz querer algo novo. De repente, a dor se esvaece; torna-se apenas uma lembrança, vaga. Coisa de relance. Acostuma-se com o que machuca. Por fim, não dói tanto quanto antes. É uma questão estratégica. Suavização de uma coisa inevitável. E assim sucessivamente.

Nevermind




Pensei em te ligar pra dizer tudo aquilo que engolia a seco. Na verdade, eu te ligaria por uma última e desesperada tentativa de auto-flagelação; te ligaria pra saber como está indo e se não poderíamos nos machucar outra vez. Tanto faz, eu diria. Pessoas servem pra essas coisas mesmo! Você se apega durante quatro anos, e tudo o que ganha é a sensação de um punhal queimando em seu peito. Aí você se ergue, finge como jamais fingiu antes; luta pra controlar seus impulsos nervosos e vive num eterno processo de suicídio e ressurreição. Mas é coisa simples, não é? Afinal, amar brutalmente um dia e simplesmente esquecer no outro é uma condição básica pra se designar "homem racional". Sentir uma respiração mais próxima; um toque entre corpos; um beijo seguido de um poema, Fernando Pessoa; tudo isso nunca fez sentido real pra mim. Mentalizava o termo amar como algo infinito, puro; algo próximo ao divino, perfeição. Sentia na pele como ardia a dor do esquecimento. Mil poesias vazias e uma vontade incontrolável de alguma coisa que não saberia dizer o que. Era como se jogassem a sua cara suja no asfalto e cuspissem (como se não estivesse ruim o suficiente).

"Nossa maior depressão são as nossas vidas." - Clube da Luta, 1999