segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Conto Dos Inocentes

27 Julho 2009
00:44 a.m



Amanhecera. O tempo grita por volta das seis e meia que já é hora de acordar. Os olhos assustados, arregalados como aos de uma coruja, levantam apressados e vestidos.
O expresso para o cotidiano é tomado ainda quente, bem depois de pronto; chega a fazer bolhas de tão quente. E então, vestia o paletó da esperança e saia porta a fora.
O trem logo passava, não tinha erro quanto ao tempo que levava no caminho até a estação. A bordo, observava rapidamente cada pedaço do lugar onde vivia. Pensava consigo como o tempo havia passado rápido, quase que imperceptível a olho nu. Descera do trem ainda pensando nisso.
Um pensamento que lhe consumia qualquer outra ideia. Mudou seu trajeto, assim, de repente; por uma simples ideia de que as coisas não estavam no lugar em que deveriam estar; e se estavam, porque estaria ali e não em outro lugar ou outra hora.
Havia andado por horas quando resolveu sentar-se numa praça. Sentou-se em um banco onde havia um tabuleiro de xadrez sem peças. Fixou sem olhar naquele preto e branco. Não haviam peças e nem um companheiro pra quem sabe uma partida de xadrez para aliviar a tensão de um dia inteiro.
O sol já iria se deitar em poucos minutos. Pegou no sono. Um sono profundo, pesado; escuro. Pegou no sono sob o tabuleiro em preto e branco. Dormira durante horas. Levantou assustado como um rato quando se depara com um gato faminto.
Mesmo após aquele sono finito, sua aparência cansada não enganava por tão pouco alguém que não enxerga-se. E isso ele sentia. O peso era mais forte do que ele conseguiria levar por mais algum tempo. Sentia um enorme vazio e um cansaço tamanho, que decidira que ali mesmo ficaria.
Conforme passavam-se os dias, as lembranças esvaeciam com mais facilidade. O peso ainda sim crescia, mas dali não movia um músculo sequer. Sentava todos os dias em sua, agora sua, mesa de xadrez. O tabuleiro sem peças era tudo o que tinha. De tardezinha, lá pelas tantas, recebia suas visitas: Os pombos que por migalhas voavam passavam sempre no mesmo horário. Os alimentava com aquilo que lhe restava mas não queria mais; então eles comiam. Acabavam com tudo. Talvez como um agradecimento limpavam todas aquelas migalhas; todo aquele resto.
Deitava num banco aquecido por jornais e retalhos. Algumas lembranças, ainda que vagas, atordoavam. A mais nítida, clara e independente de qualquer maneira brutal de esquecimento; era de como a vida pudera ter passado tão prévia diante os olhos e tão imperceptível diante os sentidos. Tão solúvel e tão transparente que nem os olhos e nem as mãos puderam ver ou tocar. Tão inflamável que queima só de lembrar do que não acontecera.
Perdera a inocência, e junto com ela a esperança. E a única coisa em que conseguia pensar era de como pudera deixar escorregar entre seus dedos o poder de ir e vir, pensar e fazer. Como pôde não ter tido a audácia de guiá-la na direção em que julgasse correta.
Restara as migalhas, mas isso não queria mais. Então o que ficou fora o nada. Um vazio ao lado de um tabuleiro preto e branco.

"Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também."
Dom Casmurro - Machado de Assis