Acordei com o barulho do movimento das chaves em seu bolso enquanto subia as escadas. Continuei deitada, em silêncio absoluto. Esperei alguns minutos e fui cautelosa até seu quarto. Estava no banho. Tinha mania de deixar a porta entreaberta. Fiquei ali, parada atrás da porta, calada. Coberta por uma indecência incontrolável, que deixara meu corpo tremulo formigando. Voltei para o meu quarto.
No dia seguinte mal pude olhar em seu rosto.
Moralmente, o meu desejo por ele não diminuia a repugnância, mas a tornava ainda maior - como almejar o fruto proibido.
Alguns dias depois, acordei com um barulho de passos vindo em direção a minha cama. Continuei de olhos fechados.
Deitou ao meu lado. Acariciava meus cabelos como se fossem fios de seda. Era melhor que qualquer outra coisa pornô. Aquilo hesitou-me por um instante. Era como se seus olhos me apalpassem. Torci o corpo para a esquerda, repuxando o lençol para a frente e evidentemente, mostrando uma nesga de nudez branca. Deixei os lábios levemente abertos e a respiração pouco mais ofegante. Atirou-se sobre mim. Num surto de adrenalina insensata. Parecia animal no cio. Nunca o havia visto assim, tão violento diante o prazer. Parecíamos dois amantes envolvidos em uma paixão brutal. Notava-se tudo estranho: o cheiro de sua pele; seus movimentos sobre meu corpo; até seu hálito não era mais o mesmo. Naquele momento eu o amava acima de tudo. Amava o som do seu gemido e suspiros. Amava a maneira como gozava loucamente em mim; com delírio; com satisfação. E eu também, gozava com tamanha loucura, estimulada por aquela circunstância da união de todo aquele desejo e todo o ressentimento que nos desunia. Gozava a desonestidade de toda aquela indecência que ambos viamos em nossos olhos. Me retorcia toda, rangendo os dentes; suando frio debaixo daquele meu inimigo odiado. Sufocava-me nos seus braços nus, enfiando em minha boca sua língua úmida e quente. Saia da boca e deslizava sobre o resto do corpo. Sentia um arrepio canalha. Um arranque de corpo inteiro; abandono de braços e pernas abertos; olhos lacrimejantes e pele fervendo. Era como se tivesse me crucificado na cama.
Terminara ali, ao meu lado, a noite.
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