segunda-feira, 10 de maio de 2010

Ausência

Era frio. O vento gelado soprava meu rosto arranhando a pele como fios de aço. Os lábios rachados tremiam. Os sopros furiosos balançavam as mais altas folhas que haviam ali. Deserta e fria, a poeira voava em meus olhos cegando a visão. O pouco calor que ainda havia em meu corpo, era roubado sem misericórdia. Não ousava dizer uma palavra sequer em meio a tanto silêncio. Tudo parecia estar morto, por dentro e por fora.
Sentei na sarjeta. A poeira suja entrava em meus pulmões. Sentia uma nostalgia tamanha! Me alimentava de lucidez. É tão utópico pensar que poderia alcançar a plenitude daquela forma. Faltava algo. Na verdade, penso que faltava alguém. Era um vazio tremendo! Uma lacuna negra. Faltava um todo. Não havia nada nem ninguém, um silêncio de se admirar. O crepúsculo no céu, denunciando a escuridão da noite, o frio aumentara ainda mais. Era um gelado que doía. Nem os pássaros que vivem ao livre, ousaram aparecer por ali. Ampliava-se na boca aquele gosto de nada. O cheiro frágil da depressão predominava. Era frio. Não sei dizer se era do lado de fora ou dentro do meu coração. Provavelmente eles competiam.


Caio Fernando de Abreu

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